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Ouvir o diagnóstico de eczema no consultório frequentemente gera dúvidas, pois a palavra não se refere a uma doença única, mas sim a um grupo de afecções inflamatórias da pele. Na prática médica, os termos eczema e dermatite são frequentemente usados como sinônimos. Trata-se de uma condição bastante comum, que pode acometer pessoas de todas as idades, desde os primeiros meses de vida até a terceira idade, manifestando-se por meio de vermelhidão, coceira intensa e alterações na textura cutânea.

Para compreender o eczema, é necessário olhar para a estrutura da nossa pele. A camada mais superficial, chamada de estrato córneo, funciona como um muro de tijolos e cimento. Os tijolos são as células da pele, e o cimento é composto por lipídios (gorduras) e proteínas específicas que mantêm tudo unido e impermeável. Nos quadros eczematosos, esse muro apresenta falhas. A barreira cutânea torna-se ineficiente, permitindo que a água evapore com facilidade (levando ao ressecamento extremo) e que agentes externos, como irritantes, alérgenos e bactérias, penetrem na pele, desencadeando uma resposta inflamatória exagerada do sistema imunológico.

Os tipos mais comuns de eczema

Como o termo engloba diferentes manifestações clínicas, a avaliação dermatológica minuciosa é o primeiro passo para identificar qual subtipo está afetando o paciente. Cada forma possui gatilhos, localizações e características particulares.

Dermatite atópica

É, sem dúvida, a forma mais conhecida e prevalente de eczema. Possui um forte componente genético e frequentemente surge na infância, embora possa persistir ou até iniciar na fase adulta. A dermatite atópica está intimamente ligada a uma predisposição familiar para condições alérgicas, compondo o que chamamos de marcha atópica (quando o paciente também apresenta asma ou rinite alérgica). As lesões costumam poupar a área das fraldas nos bebês, concentrando-se no rosto e superfícies extensoras, enquanto em crianças maiores e adultos, a inflamação tende a se localizar nas dobras do corpo, como a parte interna dos cotovelos e atrás dos joelhos.

Dermatite de contato

Este tipo de eczema ocorre quando a pele reage ao entrar em contato direto com uma substância externa. A dermatite de contato divide-se em duas categorias principais. A primeira é a irritativa, causada pelo dano direto à barreira cutânea por substâncias químicas, como sabões fortes, detergentes, solventes ou até mesmo o contato prolongado com a água. A segunda é a alérgica, que envolve uma resposta imunológica mediada por células após a exposição a um alérgeno específico, como o níquel presente em bijuterias, fragrâncias, conservantes de cosméticos ou tinturas de cabelo. A localização das lesões é a maior pista diagnóstica, pois a inflamação reflete exatamente a área de contato com o agente agressor.

Eczema disidrótico (Disidrose)

A disidrose é uma forma peculiar de eczema que afeta exclusivamente as palmas das mãos, as plantas dos pés e as laterais dos dedos. Caracteriza-se pelo surgimento de vesículas (pequenas bolhas) profundas, que se assemelham a grãos de sagu sob a pele, acompanhadas de um prurido (coceira) intenso e muitas vezes limitante. Com a evolução do quadro, as bolhas secam e a pele descama, podendo formar fissuras dolorosas. Fatores emocionais, hiperidrose (suor excessivo) e o contato com substâncias irritantes são descritos como agravantes frequentes.

Eczema numular

O termo numular deriva do latim para “moeda”, o que descreve perfeitamente o aspecto clínico desta condição. Os pacientes apresentam placas inflamatórias circulares, bem delimitadas, avermelhadas e descamativas, distribuídas predominantemente nos membros inferiores e superiores. Este tipo de eczema está fortemente associado ao ressecamento intenso da pele, sendo mais comum em adultos e idosos, especialmente durante os meses de inverno, quando os banhos quentes e a baixa umidade do ar comprometem ainda mais a hidratação natural do corpo.

Eczema de estase

Esta manifestação está diretamente ligada a problemas circulatórios. Ocorre nos membros inferiores, geralmente na região dos tornozelos e panturrilhas, em pacientes que apresentam insuficiência venosa crônica (varizes e dificuldade de retorno do sangue das pernas para o coração). O aumento da pressão nos vasos sanguíneos faz com que fluidos e células inflamatórias extravasem para a pele, gerando vermelhidão, coceira, descamação e, a longo prazo, o escurecimento da região devido ao depósito de hemossiderina (pigmento derivado do ferro do sangue).

Como o eczema se manifesta nas diferentes fases

Independentemente do tipo, o eczema compartilha um sintoma central: o prurido. A coceira é o sintoma mais marcante e o que mais impacta a qualidade de vida do paciente, prejudicando o sono, a concentração e o bem-estar emocional. As lesões na pele, no entanto, mudam de aspecto dependendo do tempo de evolução da doença, dividindo-se em três fases clínicas.

Na fase aguda, a inflamação é recente e intensa. A pele apresenta eritema (vermelhidão forte), edema (inchaço) e, muitas vezes, exsudação, que é a saída de um líquido claro que deixa a pele com aspecto úmido ou “choroso”, podendo formar pequenas bolhas.

Se a inflamação persiste e entra na fase subaguda, o aspecto úmido diminui. A vermelhidão torna-se menos viva, e começam a surgir crostas e uma descamação fina na superfície da pele.

Já na fase crônica, que ocorre após semanas ou meses de inflamação e do ato contínuo de coçar, a pele sofre uma alteração estrutural chamada liquenificação. O local afetado torna-se espesso, áspero, escurecido e com os sulcos naturais da pele extremamente marcados. O ciclo vicioso de coçar e inflamar é o principal responsável por essa alteração, pois a fricção mecânica constante hipertrofia a epiderme.

O raciocínio clínico no diagnóstico

O diagnóstico do eczema é eminentemente clínico. Não existe um exame de sangue isolado que confirme a condição. O dermatologista constrói o diagnóstico como um quebra-cabeça, baseando-se em uma anamnese detalhada e no exame físico minucioso.

Durante a consulta, investigamos o histórico familiar de atopia, a profissão do paciente, seus hobbies, a rotina de cuidados com a pele, o uso de medicamentos e os fatores que parecem piorar ou aliviar os sintomas. A distribuição das lesões pelo corpo fornece informações valiosas. Um eczema restrito ao lóbulo da orelha sugere alergia ao metal do brinco, enquanto lesões disseminadas nas dobras apontam para um quadro atópico.

Quando há suspeita de dermatite de contato alérgica, o dermatologista pode lançar mão do teste de contato (patch test). Neste exame, pequenos adesivos contendo substâncias padronizadas (como metais, borrachas e conservantes) são aplicados nas costas do paciente e removidos após 48 horas, com leituras subsequentes para identificar qual agente está desencadeando a alergia.

A biópsia de pele é reservada para casos atípicos, nos quais as lesões não respondem à abordagem inicial ou quando é necessário descartar outras doenças de pele que podem mimetizar um eczema, como a psoríase ou infecções fúngicas extensas.

Abordagem médica: os pilares do manejo

O manejo do eczema não se resume a prescrever uma pomada e aguardar a resolução. Por se tratar de uma condição que envolve a disfunção estrutural da pele e a reatividade imunológica, o raciocínio terapêutico baseia-se em três pilares fundamentais: restaurar a barreira cutânea, controlar a inflamação ativa e afastar os fatores desencadeantes.

A restauração da barreira é a pedra angular da conduta. Sem a reposição dos lipídios perdidos, a pele continuará vulnerável. O uso de emolientes adequados (hidratantes formulados para pele sensível, ricos em ceramidas e sem fragrâncias) é indicado diariamente, mesmo quando a pele não apresenta lesões ativas. O hidratante atua como uma película protetora, reduzindo a perda de água e dificultando a penetração de irritantes.

Para controlar as crises inflamatórias, a dermatologia dispõe de diversas classes terapêuticas. Os corticosteroides tópicos são frequentemente empregados devido à sua rápida ação anti-inflamatória. A escolha da potência do corticoide e do veículo (creme, pomada ou loção) depende da localização da lesão (a pele do rosto é mais fina do que a da sola do pé) e da fase do eczema. O uso dessas substâncias exige acompanhamento médico rigoroso para evitar efeitos adversos, como o afinamento da pele.

Como alternativa ou complemento aos corticoides, especialmente em áreas de pele fina como pálpebras e pescoço, utilizamos os inibidores da calcineurina tópicos. Eles modulam a imunidade local sem o risco de atrofia cutânea, sendo valiosos na manutenção a longo prazo.

Em casos de eczema grave, extenso e refratário aos tratamentos aplicados diretamente na pele, a conduta médica precisa ser ampliada. Nesses cenários, avaliamos a necessidade de fototerapia (exposição controlada à radiação ultravioleta com ação imunomoduladora) ou de terapias sistêmicas. O arsenal sistêmico evoluiu significativamente, incluindo desde medicamentos imunossupressores tradicionais até os modernos agentes imunobiológicos e inibidores da JAK, que atuam bloqueando vias específicas da inflamação celular de forma mais direcionada.

Por fim, a educação sobre hábitos diários é parte indissociável da avaliação. Ajustar a temperatura da água do banho, substituir sabonetes agressivos por limpadores sem sabão (syndets), usar roupas de algodão em vez de tecidos sintéticos ou lã, e gerenciar o estresse são medidas que impactam diretamente a frequência e a intensidade das crises.

O eczema é uma condição crônica e recidivante, mas com a identificação correta do subtipo e o acompanhamento dermatológico regular, é possível restabelecer o conforto da pele, quebrar o ciclo da coceira e devolver a qualidade de vida ao paciente.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Cada pele responde de um jeito, e a conduta adequada depende de avaliação individual.

Dra. Camila Rotta, médica dermatologista. CREMERS 37566, RQE 31981. Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

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