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A percepção da flacidez facial é uma das queixas mais frequentes nos consultórios. Com o passar dos anos, a estrutura do rosto passa por transformações profundas que envolvem não apenas a superfície da pele, mas também a reabsorção óssea, o reposicionamento dos compartimentos de gordura e a degradação das fibras que conferem firmeza ao tecido. Diante desse cenário, os fios de sustentação em dermatologia surgem como um recurso terapêutico estrutural, voltado para o manejo da ptose (queda) dos tecidos e para a melhora da qualidade global da pele.

O uso de fios não é uma prática isolada, mas sim parte de um raciocínio clínico abrangente sobre o envelhecimento. Ao compreender que o rosto envelhece em três dimensões, o médico dermatologista busca abordagens que atuem em diferentes camadas. Os fios se propõem a atuar no tecido subcutâneo, oferecendo uma resposta dupla que envolve tanto o reposicionamento mecânico imediato quanto a estimulação biológica de novas fibras de sustentação ao longo dos meses seguintes à sua aplicação.

O processo de envelhecimento e a perda de suporte

Para entender o papel dos fios, é necessário compreender o que acontece sob a pele com o passar do tempo. A juventude facial é caracterizada por um triângulo invertido, com o volume concentrado no terço médio (maçãs do rosto) e um contorno mandibular bem definido. Com o envelhecimento, esse triângulo se inverte. A base passa a ser o terço inferior do rosto, resultando no acúmulo de pele e gordura na região da mandíbula e do pescoço.

Esse fenômeno ocorre por múltiplos fatores. Há uma diminuição na produção natural de colágeno e elastina, as proteínas responsáveis pela firmeza e pela elasticidade cutânea. Simultaneamente, os coxins de gordura que dão volume ao rosto sofrem atrofia e deslizam para baixo devido à ação da gravidade e ao enfraquecimento dos ligamentos retentores da face. Além disso, o próprio esqueleto facial sofre remodelação e reabsorção, perdendo a capacidade de “segurar” os tecidos sobrejacentes.

Tratar a flacidez, portanto, exige mais do que cuidados tópicos. É preciso intervir nas camadas onde a perda de suporte estrutural realmente acontece, e é nesse contexto anatômico que a aplicação de polímeros absorvíveis no plano subcutâneo se justifica.

O que são os fios de sustentação

Os fios utilizados na dermatologia moderna são filamentos sintéticos compostos por materiais totalmente biocompatíveis e absorvíveis pelo organismo humano. Diferente das abordagens de décadas passadas, que utilizavam fios permanentes e não absorvíveis (os quais frequentemente causavam complicações a longo prazo), a ciência médica atual prioriza a segurança dos materiais que o próprio corpo é capaz de degradar e eliminar de forma natural.

Os componentes mais comuns na formulação desses fios são a polidioxanona (PDO) e o ácido poli-L-lático, substâncias amplamente conhecidas e utilizadas há muito tempo na medicina em suturas de cirurgias internas, como as cardíacas e oftalmológicas. A presença desses materiais no tecido subcutâneo desencadeia uma resposta fisiológica controlada, que é o pilar do seu funcionamento.

Mecanismo de ação: tração e neocolagênese

O funcionamento dos fios baseia-se em dois princípios fundamentais, que variam de acordo com a estrutura física do fio escolhido pelo médico.

Reposicionamento mecânico

Alguns fios são fabricados com pequenas garras, espículas ou cones ao longo de sua extensão. Quando inseridos no tecido adiposo superficial (logo abaixo da pele), essas estruturas se ancoram na trama de sustentação da face. O médico, ao tracionar o fio suavemente, consegue reposicionar os tecidos que cederam, criando um vetor de elevação. Esse é o efeito mecânico, que atua na organização imediata do contorno facial, auxiliando na atenuação de vincos e na redefinição da linha da mandíbula.

Estímulo biológico (Neocolagênese)

Independentemente de terem garras ou não, todos os fios absorvíveis atuam como agentes bioestimuladores. A introdução do material no organismo gera uma reação inflamatória subclínica e controlada. O corpo reconhece a presença do filamento e, na tentativa de isolá-lo, recruta fibroblastos, que são as células responsáveis por produzir colágeno.

Durante o período em que o fio está sendo gradativamente degradado por hidrólise (um processo que pode levar meses), uma nova matriz de colágeno é formada ao redor de seu trajeto. Essa fibrose benéfica e estruturada melhora a densidade, a espessura e a firmeza da pele na região tratada. Assim, mesmo após a completa absorção do material sintético, o tecido mantém os benefícios da rede de colágeno recém-formada.

O raciocínio clínico na escolha dos fios

A dermatologia dispõe de diferentes configurações de fios, e a escolha do modelo adequado depende estritamente da necessidade anatômica de cada paciente. Não existe um protocolo único, mas sim um planejamento individualizado.

Os fios lisos, por exemplo, não possuem estruturas de tração. Eles são utilizados exclusivamente pelo seu potencial de estímulo de colágeno. O médico pode optar por inseri-los em formato de rede (ou malha) em áreas onde a pele apresenta afinamento e craquelamento, como a região abaixo dos olhos, ao redor da boca ou no pescoço. O objetivo aqui não é levantar o tecido, mas redensificar a derme e melhorar a textura e a firmeza local.

Já os fios espiculados ou com cones são a escolha quando há indicação de reposicionamento vetorial. Eles são planejados para criar eixos de sustentação em áreas de maior flacidez, como o terço médio da face e o contorno mandibular. Em muitos planos de tratamento, o dermatologista pode associar ambos os tipos de fios na mesma sessão, abordando a flacidez tanto pelo vetor de tração quanto pela melhora da densidade cutânea global.

Por que a indicação deve ser estritamente médica

A indicação do uso de fios requer uma capacidade diagnóstica apurada. Nem todo grau de flacidez se beneficia desse recurso. Pacientes com flacidez muito severa, excesso de pele redundante ou tecidos faciais excessivamente pesados e espessos podem não encontrar nos fios a resposta clínica adequada, sendo, em alguns casos, candidatos a intervenções cirúrgicas.

Por outro lado, peles excessivamente finas e sem o mínimo de tecido subcutâneo exigem cautela redobrada, pois a inserção do fio pode se tornar visível ou palpável. O médico avalia a espessura da pele, a qualidade do tecido, a mímica facial, a estrutura óssea e o grau de ptose para determinar se o paciente tem indicação para o procedimento. A promessa de que os fios resolvem qualquer tipo de queda facial não condiz com a realidade clínica, e somente um profissional médico capacitado pode estabelecer as limitações terapêuticas para cada indivíduo.

A complexidade da execução e o domínio da anatomia

A aplicação de fios de sustentação é um procedimento invasivo que exige profundo conhecimento da anatomia facial. O rosto humano é um território complexo, atravessado por uma intrincada rede de vasos sanguíneos importantes, artérias calibrosas e ramos nervosos motores e sensitivos.

O plano de inserção correto para a maioria dos fios é o tecido subcutâneo superficial. Inserir o fio em um plano muito superficial pode causar irregularidades, repuxamentos na pele (conhecidos como dimpling) ou extrusão do material. Por outro lado, aprofundar demais a inserção coloca em risco estruturas nobres, podendo resultar em lesões vasculares, hematomas extensos ou injúrias a nervos faciais que controlam a movimentação do rosto.

Além da precisão anatômica, a execução médica garante o rigoroso controle de assepsia e antissepsia. A introdução de um corpo estranho no organismo deve ser feita em ambiente adequado e com técnica estéril para mitigar o risco de infecções, formação de nódulos ou granulomas (reações inflamatórias exacerbadas).

O médico também está preparado para gerenciar intercorrências. A medicina baseia-se na premissa de que todo procedimento possui riscos inerentes. A diferença reside na capacidade do profissional de diagnosticar precocemente qualquer alteração indesejada e intervir de forma imediata e eficaz, prescrevendo medicações sistêmicas ou realizando manobras corretivas quando necessário.

A avaliação dermatológica como ponto de partida

O manejo da flacidez nunca começa pelo procedimento em si, mas pela consulta médica. Durante a avaliação, o dermatologista realiza o mapeamento facial, analisa a dinâmica muscular e discute o histórico de saúde do paciente. É o momento de entender as expectativas e alinhar o que a ciência médica atual pode oferecer de forma segura e ética.

Em muitos casos, o raciocínio clínico aponta para a necessidade de preparar a pele antes da inserção dos fios, otimizando o ambiente celular para que a produção de colágeno seja mais eficiente. Em outras situações, a associação com outras classes terapêuticas pode ser a conduta escolhida para abordar diferentes camadas da face de forma sinérgica.

O respeito à anatomia individual e a compreensão dos processos biológicos de envelhecimento são os pilares que norteiam a utilização dos fios de sustentação. A dermatologia atua com o compromisso de promover a saúde e a integridade da pele, priorizando sempre a segurança, a técnica fundamentada e o acompanhamento clínico rigoroso a longo prazo.

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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Cada pele responde de um jeito, e a conduta adequada depende de avaliação individual.

Dra. Camila Rotta, médica dermatologista. CREMERS 37566, RQE 31981. Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

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